terça-feira, 10 de agosto de 2010

a verdadeira história de ana maruja: uma tragicomédia em três actos


“veio de manha molhar os pés na primeira onda
abriu os braços devagar... e se entregou ao vento
o sol veio avisar... que de noite ele seria a lua,
pra poder iluminar... ana, o céu e o mar.” (fernando anitelli)

"tenho saudades da ana maruja que foi para Portugal e não volta." (Tita)

Acto Primeiro: o pedido

Foi numa dessas tardes de sol tão quente em que a areia insiste em queimar as plantas dos pés que Ana Maruja foi interceptada por uma piscadela de olho. Olhou por cima do ombro a tentar ver a Giselle Bündchen atrás de si, mas não, nada disso. A piscadela orquestrada por Tubarão Olhos de Mel era mesmo para si. Ana Maruja corou e fez de conta que não era nada com ela. Continuou a percorrer o areal que a queimava sem um único ai, porte de deusa, olhar no horizonte lá para os lados do Brasil. Tubarão Olhos de Mel ficou ofendido, mas quem se julgava essa chavalinha? A Giselle Bündchen? Devia ser, tal era o seu ar de superioridade.
Na verdade, Ana Maruja tinha tido um caso tórrido com Horácio Barbatana Veloz e a coisa não tinha corrido bem. Horácio tinha a mania da perseguição e lentamente tinha insinuado a sua patologia enciumada e obsessiva. Ana Maruja tinha finalmente conseguido libertar-se desta relação doentia e o que ela mais queria era sol, mar e paz. Prosseguia a jovem areal fora, saracoteando a sua bolsinha cor de rosa um pouco acima da altura do joelho, quando Tubarão Olhos de Mel, num passe semelhante à magia de David Copperfield, cai à sua frente e barra-lhe descaradamente o passeio.
Deixa-me passar, pede a miúda com o queixo levantado. Para passares aqui terás de passar por mim, querida Ana Maruja, e agita as barbatanas em claro sinal de orgulho macho. Ana tentou contornar o tubarão mas ele era rápido e conseguia sempre bloquear-lhe a passagem. Olha, diz a menina fitando os olhos de mel bem no fundo, eu sou da paz, não quero chatices com ninguém. Diz-me lá o que queres de mim para eu poder ir à minha vida.
Desenrola-se então a terrível e trágica história do tubarão na primeira pessoa. A luz do sol baixa, dá lugar ao lusco-fusco, as primeiras luzes dos botes de pesca acendem-se e o farol, que parecia ter sido contratado especificamente para aquele efeito, ilumina Olhos de Mel como se este fosse o Sinatra em palco. Sou um triste tubarão, Ana Maruja, não te deixes enganar pelo meu aspecto lustroso e feroz. Estás a ver este canino contundente? É postiço. Tenho uma conta no dentista que nem sei como a vou pagar. Sou um desgraçado, ninguém gosta de mim, se quero vir apanhar um ar para perto da praia as pessoas desatam logo a correr, aos berros, vem a Polícia Marítima, o Greenpeace, fazem o diabo a quatro e ninguém consegue entender o que na verdade me traz aqui. Tenho de te contar o meu maior segredo e só espero que me possas ajudar. Não é por acaso que vim ter contigo aqui hoje, sabes? Tenho andado a vigiar-te, sei que vens aqui todos os dias, ou de manhã ou de tarde, e fico lá de longe a ver-te nadar. Nadas tão bem, Ana Maruja, e sabes nadar os quatro estilos... impressionante! Quando te vejo no mar penso logo numa grande amiga que tive há uns anos, a Sereia Suzete, que era uma autêntica bailarina de mar. Nadava horas a fio, deixava no mar o toque da sua leveza, era graciosa como uma pluma. Infelizmente já não está entre nós, teve um acidente, coitada...nem me quero lembrar disso. Tal como a Sereia Suzete, tu também és uma brilhante nadadora e o mais notável é que és humana, nunca conheci ninguém assim.
Obrigada Tubarão, respondeu a jovem com um sorriso ainda desconfiado. Gosto de nadar mas não sou assim tão boa. Prefiro pensar que quando estou dentro do mar me entrego completamente a ele e esta entrega é tão intensa que quase me transformo numa onda. Deve ser isso...
Tubarão Olhos de Mel subentende uma brecha na postura defensiva da menina e imediatamente a aproveita. Num segundo coloca-se estrategicamente de joelhos e pega-lhe na mão. Ana Maruja, dás-me a honra de seres a minha professora de natação? Quero muito aprender contigo. Para mim és a sereia mais bela deste mar. Por favor, por favor.
Ana Maruja é apanhada de surpresa. Consegue resistir a tudo menos a pedinchices e lágrimas à mistura. Aqueles olhos de mel e de cão abandonado estavam a fazer-lhe cócegas no coração. Coitado do tubarão. É para todos o animal mais feroz e nem nadar direito sabe. Que triste.

Então? - volta o tubarão a carregar o semblante desgraçado. Aceitas o meu pedido?


7 comentários:

Sarabudja disse...

Gosto muito.

Anónimo disse...

gostei do post, da foto.

tás inspirada.

good girl.

Trêza disse...

Ficamos à espera da continuação da história :)

Anónimo disse...

Em verdade, és a sereia mais bela desse mar. Gosto muito, muitíssimo, dos teus textos.
Filinto Elísio

Minhokinha disse...

:) Minhokinha corada.

Catarina Cardoso disse...

Uma sereia que faz muita falta nos mares da cidade da praia. fica o canto da sereia, n é minhokinha?

Anónimo disse...

belo...
bjinho grande
nunolobo