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domingo, 7 de dezembro de 2008

O Bracarense


Diga-se o que se disser, há coisas que simplesmente não podem ser contestadas e uma delas, doa a quem doer, é que Braga é uma cidade rica. Rica em igrejas e em vasta representação clerical, rica em prédios berrantes que surgem mais íntimos do que vizinhos, rica em túneis quilométricos, em pudim abade de priscos e frigideiras do cantinho, rica em papas de sarrabulho como não há em mais lado nenhum, rica em estudantes de tricórnio, em BMW’s e, claro, rica em parolos polidos. O parolo polido está para Braga como as Carrie Bradshaw’s estão para Manhattan e as mulheres de boina de lado para Paris. Enquanto o parolo assumido grita ao mundo "Sou parolo", o segundo gosta de se camuflar e dar a conhecer aquilo que na verdade não é. Vejamos.
Do subtipo parolo polido, o macho sénior é aquele que dá a impressão de ser um verdadeiro entendido em todas as matérias, não há nenhum assunto que escape à sua omnisciência e a prova disso é a sua proeminente barriguinha que já viu muito mundo, já comeu de tudo o que havia para comer, tendo portanto alcançado, e com mérito, o estatuto de homo sapiens vividus. A voz é funda e basofa, empoleirada na garganta qual galo no poleiro e condiz na perfeição com o BMW ou o Mercedes (não os últimos modelos, nem sequer muito modernos, mas as típicas banheiras do século passado) que ostenta avenida abaixo, a 18km por hora para todos o poderem admirar. Veste-se com as marcas tidas como chiques que a senhora dona esposa obriga e dá facadinhas na dita com a secretária (ou qualquer rapariga com menos de quarto de século que tenha em vista um bom VISA-Prendas-Sempre-Que-A-Menina-Faz-Beicinho). Tem um casarão, claro está, com comandos para tudo e mais alguma coisa, imponentes esculturas, bustos e quadros com molduras douradas extremamente pesadas e gosta de assassinar a casa de banho principal com azulejos pretos e banheira redonda como a senhora dona esposa viu numa revista que documentava, com a seriedade característica da imprensa cor de rosinha, a casa de Luciana Abreu.
Se dúvidas existissem sobre como detectar uma parola polida sénior (Onde está o Wally? por entre a bicharada bracarense), a pista primeira e óbvia seria a quantidade de base que este subtipo insiste em colocar na sua face. Aquela base escura e plástica, substancialmente diferente do seu natural tom de pele, a querer dar o ar "fui ali às Caraíbas passar uns dias e já voltei". As suas roupas são caríssimas pois acredita piamente que a imagem exterior reflecte a interior, por isso faz questão de gastar quantias consideráveis do seu dinheiro (salário? Rendimento? Pensão? Um mistério!) em roupas que considera de alto nível. Quer dizer, a parola sabe que nunca almejará ao nível cimeiro da haute couture, tem consciência de que nem que trabalhe (faça render? Faça lucrar? Outro mistério!) dez anos inteiros sem comer conseguirá juntar o dinheiro suficiente para um guarda-roupa totalmente forrado a Roberto Cavalli, Versace, Dior ou Yves Saint-Laurent. Assim, contenta-se com as griffes mais em conta, uma Massimo Dutti, uma Lanidor, por vezes a loucura dum Augustus mas sempre, incontestável e impreterivelmente, uma devoção cega pela Salsa e pela Ana Sousa. Ornamenta-se com um sem número de anéis, pulseiras e colares de medalhões de um ouro extremamente amarelo e antigo, ouro das nossas bisavós, pedras preciosas gigantes a ferir a vista, maquilhagem berrante, verde e azul obrigatórios a colorir os olhos. Finaliza com muita laca no cabelo para aguentar qualquer tempestade ciclónica e uma raposa morta ao pescoço by João Caçador. No hard feelings!
A jovem fêmea do subtipo em análise distingue-se da sénior fundamentalmente por ter menor capacidade económica, ou seja, faz da Stradivarius, H&M, Bershka e afins as suas igrejas. E Salsa. Sempre. Para ela a classe está nos pormenores, por isso dedica incontáveis horas, dias inteiros, à decoração das suas longas unhas de silicone rosa-choque com efeitos Floribela, às madeixas de várias tonalidades de louro e aos cintos dourados e prateados com berloques que fazem lembrar os sinos das igrejas. Base qb, bota de tacão, cigarro na mão, pinta de lojista, calça justa no rabo, pose de boa. A jovem parola polida gosta de expressões que considera reveladoras de considerável cultura como "fulano não tem perfil para qualquer coisa" ou a sempre pronta na língua "Eu a mim parece-me que" só substituída por "Eu para mim tenho que…". De vez em quando escorrega nos tempos verbais mas, sejamos justos, esta deficiente conjugação verbal é transversal a todas as idades e géneros do parolo polido. Os mais jovens já conseguem travar a tempo o "eu foi" e "eu esteve", sendo este exercício consideravelmente mais difícil para os mais velhos. Todos quase sem excepção fazem questão absoluta de ridiculamente conjugar a segunda pessoa do pretérito perfeito, criando frases tão belas quão repugnantes como "Ó Lizete, fostes à médica, fostes? Dissestes que te dói muito os rins, dissestes? E fizestes o que ela te mandou, fizestes? Tu bê lá… ó Lizete!"
Não há grande coisa a acrescentar ao parolo polido macho da camada jovem. É aquele com quem mais nos cruzamos na rua, o que atende o telefone com um "Ou" sonoro em vez de Sim ou está ou ainda pode falar. Se estivermos na dúvida se estamos perante um, não nos devemos deixar enganar. O parolo assumido tem o mesmo aspecto, é certo, mas o polido enriquece o seu look com umas t-shirts justas que gritam De Puta Madre com brilhantes a condizer, umas calças que abanam Rich ou Gorgeous no ass e lá vão eles com aquele ar de garanhão a assobiar as miúdas e a dizer coisas como "Ainda dizem que as flores não andam", comentários mais requintados sem a vulgaridade do "Comia-te toda já aqui"… enfim, são jovens que, de uma forma ou outra, se civilizaram em relação aos seus primos parolos assumidos e quando voltam para a aldeia-mãe, já no final de mais um dia, os olham com desdém como um Imperador encara os seus súbditos.

Fica este estudo completo no que concerne o parolo nas suas mais variadas vertentes. Proceder-se-á, de seguida, à análise do mediano, o normal, vulgo pãozinho-sem-sal.

domingo, 5 de outubro de 2008

O bracarense


Esclarecimento prévio: o bracarense é um bicho que faz parte do reino animal português. O factor que o distingue dos demais (o lisboeta aka alfacinha; o portuense aka tripeiro; o coimbrinha ou o poveiro, só para citar uns quantos exemplos paradigmáticos de algumas subespécies peculiares) é o seu habitat natural: o vasto concelho de Braga, rico em freguesias e vilarejos com nomes tão estranhos como Frossos e Priscos.
Arriscaria a dividir o bicho bracarense (por regra um animal de pele morena, cabelo naturalmente escuro e alguma abundância de pelugem) em cinco subtipos, todos eles altamente merecedores de estudo mais aprofundado. Assim temos:

1. o parolo assumido;
2. o parolo polido;
3. o mediano;
4. o pseudo;
5. o colorido.

À primeira vista poderão parecer poucas categorias para tanta e variada bicharada, mas uma análise cuidada e exaustiva certamente concluirá que nestas cinco gaiolas há espaço suficiente para todos os animais. Examinemos cada uma destas começando pelo bicho mais abundante na cidade, o que pipoca em cada esquina, deambula pelas praças e faz de domingo o dia do passeio ao centro: o parolo assumido.

1. O parolo assumido, também carinhosamente apelidado de broeiro, neca ou tóne, distingue-se ao longe pela sua atitude despreocupada, ausente de qualquer tipo de preconceito, de quem não tem nada a esconder. É parolo, tem total consciência disso e muito orgulho bafejado a perdigotos de fino e hálito de tremoços. Nem sequer lhe ocorre, portanto, uma possível mudança de status, sendo por isso um dos subtipos mais honestos consigo e com o restante reino animal.

O comportamento em matilha varia consoante a faixa etária: os que já ostentam pelugem branca gostam de usar corrente de ouro ao peito, como um troféu de alguma façanha vitoriosa, boné surrado quase sempre do Benfica ou do SCB (o nosso Braguinha, como gostam de lhe chamar), ou ainda de um qualquer candidato à presidência de um qualquer trono, bolsa de ganga presa à cintura onde guardam o cartão gasto da Caixa, o BI e mais uns trocos, roupa geralmente coçada e alusiva à moda dos anos 80. Um pormenor que nunca falha é a autoridade, o à-vontade e o savoir-faire que só a experiência permite com que coçam o tomate em público e sem qualquer tipo de pudor. Irritou? Coçou! Se alguém viu, paciência, que não olhasse!
O parolo assumido jovem gosta, antes de mais, do gel. Cabelo irrepreensivelmente lambido e com ar de Cristiano Ronaldo (ídolo de todas as espécies de parolos, venerado na intimidade de cada parola, discutido e aclamado em cada noite de copos), ganga coçada e muito rota, calça justa para salientar aquilo que consideram ser um rabo todo bom, t-shirt preta, colada ao peito e vulgarmente de decote em bico (de onde sobressaem os pelos misturados com os músculos trabalhados e uma corrente de prata à Quaresma) ou camisas aos quadrados metidas para dentro a fazer ver o cinto preto de fivela Far West, Dangerous, e mais recentemente Sexy, bota texana ou sua semelhante que suporta um andar pausado, a armar em engatatão, temperado ocasionalmente com um descarado “ó jeitosa, és boa pa caralho, óbistes?” ou outra pérola do género com que teimam em brindar as fêmeas.


A fêmea do subtipo parolo assumido, por outras palavras, a chamada brejeira, vulgo “labajona” ou mesmo rameira, costuma fazer-se notar imediatamente pelo tom de voz alto acima da média, pronúncia do norte orgulhosamente bem vincada e inúmeros caralhos e fosga-se’s pelo meio. As fêmeas já de uma certa idade optam quase sempre pela madeixa loira a contrastar com a raíz muito preta que emolduram um corte à cogumelo, muitas com franja à Cataratas do Iguaçú, no Inverno não largam o blusão de couro preto largo que pensam fazer conjunto “espectacular” com a saia travada de fazenda pelo joelho, botim preto de biqueira (que é aquela bota que vai até um pouco acima do tornozelo), collant à cor da pele, bolsa de pele-fingida verde ou roxa e laca qb na franja e na poupa que teimam em erguer na testa. Gostam de estar nas portas dos hospitais por qualquer unha partida, enchem os corredores da Segurança Social e atropelam-se nas paragens de autocarro.
A parola assumida jovem é bastante mais complexa porque pode assumir várias formas, desde a já referida rameira pura àquela que se aproxima da parola polida. É normalmente anafada, e se alguma vez teve brilho no rosto foi carcomido pelo característico problema de acne. Regra geral parece que lhe caiu uma garrafa de óleo Fula no cabelo e faz um enorme esforço para se vestir como vê nas novelas: tudo é berrante, tudo é aparentemente fashion, tudo é a menos de 3 euros a peça. A parola assumida jovem sonha em ser como a Floribela e faz do shopping a sua Meca. Para lá se desloca domingo após domingo com as amigas a fim de o percorrer por inteiro no mínimo 27 vezes, sonhar em frente aos modelitos que vê nas montras e consumir o que a magra poupança lhe permite. As tardes de domingo no shopping são, aliás, marca característica dos parolos assumidos, machos e fêmeas, que assim consideram estar na moda.


Em traços gerais, e com a absoluta consciência de que muito ficou por anotar, está aqui apresentado o parolo assumido de acordo com a pena mordaz da Minhokinha. Seguir-se-á o parolo polido, espécie muito manhosa que obrigará a autora a infiltrar-se no submundo perigoso das Modalfas e Fabio Lucci's. A não perder!