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domingo, 26 de outubro de 2008

Maria Ramantxada: Epílogo

A convite da Feira do Livro de Lisboa, Arménio Vieira deslocou-se à diáspora após uma ausência de mais de vinte anos. Ninguém acreditava que o poeta deixasse as suas tardes de xadrez na esplanada central, nem que fosse apenas por uns dias, para se enfiar num avião com destino (ainda por cima) a Portugal. Rolou aposta, rolou tudo mas o facto é que, naquela madrugada de Junho, o escritor deixava para trás o Monumento ao Emigrante erigido na rotunda do aeroporto. Si ka badu, ka ta biradu.
Após cerca de oito anos sem nada dar à estampa, Arménio regressava com um romance policial e estreava-se assim neste género. Teve honras de grande escritor, elogios que normalmente eram dirigidos àquela tríade africana Germano Almeida- José Eduardo Agualusa- Mia Couto, comitiva à sua espera no Aeroporto da Portela e tudo! O Conde começava a sentir-se indeed membro da realeza. Levaram-no ao hotel no centro de Lisboa, instalou-se na sumptuosa suite, acendeu um Davidoff, mirou-se ao espelho e sorriu entre baforadas. Valera a pena, tudo valera a pena!
Vestindo a capa de notável e excêntrico escritor das ilhas, Arménio desceu ao bar do hotel onde o aguardava a jovem que o iria apresentar ao público nessa mesma noite. A si e ao seu mais recente romance: Vermelho Escarlate. Quando a viu cruzar a perna à mesa e pedir um whisky, Vieira achou-a ainda mais nova do que certamente seria: 30 anos no máximo, pinta de 23 e vozinha de 12. Cabelo castanho curto desalinhado, olhos grandes e expressivos de gato, nariz arrebitado, boca fina e rasgada, rapariga para o seu metro e setenta, botas de cano alto e vestido preto. Justo. No momento em que Arménio se abeirou da sua mesa, Joana Carvalho engasgou-se no whisky, tossiu muito e esbaforidamente, pediu desculpa, que desculpasse muito e continuou naquela convulsão entre perdigoto que se solta, comichão na garganta, excitação de estar perante aquele homem cujas palavras tanto admirava e embaraço pela sua própria figura atabalhoada. Acalmando-se a garganta e os nervos da pequena, puderam sentar-se e trocar impressões sobre o alinhamento da sessão dessa noite no Parque Eduardo VII.
Assim que entrou no recinto-anfitrião da Feira do Livro de Lisboa, Pires-Laranjeira, o aclamado crítico de literatura africana, veio estender-lhe a mão, dar-lhe os parabéns por semelhante lufada de ar fresco na escrita cabo-verdiana, quem diria que por detrás do poeta se escondia um impressionante homem do crime, semelhante era a minúcia com que descrevia os homicídios desse terrível Jack the Ripper de Santo Antão. Arménio balbuciou algo indistinto e foi imediatamente ao bolso buscar um cigarro. Insistia em manter a sua pose arrogante e elitista, aparentemente não se deixava deslumbrar por nada nem por ninguém, quando avistou António Lobo Antunes, do outro lado de um enorme corredor de livros da Caminho, ambos se contraíram e lançaram aquele olhar fechado e provocador de cowboys no Far West: pernas entreabertas em U, mãos pousadas no coldre prontas a sacar a arma, assobiozinho western a lembrar o mestre Clint Eastwood ao longe, o bom-o-mau-e-o-vilão!
Sentado na mesa de honra, de frente para um público curioso e ansioso, Arménio começou a sentir-se inquieto. Não tinha nada com que ocupar as mãos, uma espécie de suor frio descia-lhe pelo cabelo oleoso, tentava concentrar-se em não abanar a perna enquanto ouvia Joana a tentar uma interpretação plausível do horror descrito na sua obra. A rapariga apoiava-se em expressões como intensidade dramática, metalinguagem literária, imagética do locus horrendus, algumas ressonâncias de Frankestein de Mary Shelley, metáforas da fragilidade humana perante a pata opressora e pesada do desenvolvimento incontido, desmesurado e atroz, sanidade versus loucura e a mente de Arménio fugiu-lhe e soltou-se… já não via nada à sua frente, apenas o terror nos olhos dela quando percebeu que ia morrer, sentia os seus braços a apertá-lo no desespero de o tentar deter e ao mesmo tempo de o levar a penetrá-la, mais de trinta anos de puro desejo reprimido, disfarçado, adiado e, naquela noite, a ilusão de que a espera havia chegado a fim. Gargalhadas que o despertam, o auditório sorridente e expectante aguardando as declarações do notável escritor. Abre a boca e não lhe sai um som, sorri para disfarçar, Joana-bombeira diz que deve ser da emoção e continua o seu solilóquio. Não fazia ideia que um ser humano podia conter tanto sangue nas veias, sangue vivo e feroz que esguichava por todo o lado. Quis acabar com ela, acabar com aquela vontade de a querer todos os dias, de fingir que não sentia o seu desprezo. Quis matar o seu amor por já não aguentar mais amá-la assim. Quis extinguir a única pessoa que sabia que ele era capaz de procriar, que tinha um filho e que a obrigara a dá-lo ao mundo. Não queria mais cúmplices para a sua egocêntrica monstruosidade que o fizera abdicar do fruto daquele amor apaixonado e doentio e permitira que aquele pobre rapaz fosse abandonado, saltando de lar em lar, procurando respostas e, nada conseguindo, escondendo a sua dor debaixo da tinta berrante com que pinta o cabelo todas as semanas. Uma ligeira cotovelada… hã? Inspiração para a criação daquele serial killer que aterrorizava o Paúl? Arménio cora ligeiramente. O homicídio de Maria Ramantxada já tinha sido há sete ou oito anos. Nos livros, sorri, nas minhas intensas leituras e no cinema, claro. Já alguma vez lhe disse que quando era miúdo, lá na Ponta Belém, eu e os meus amigos fazíamos colecção de pedacinhos de negativos de filmes? Joana confessa que não fazia ideia que ele fosse um admirador da Sétima Arte e que nunca lera nada a esse respeito. Pois é, menina Joana, pois é, sorri Arménio maldosamente perante um público ignorante, sabe que os críticos acreditam saberem tudo sobre os escritores quando em verdade não sabem nada. E remata, piscando o olho: eu, por exemplo, sou uma caixinha de surpresas!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Maria Ramantxada XI

O agente Ederlindo da Polícia Nacional era a força da lei mais próxima da escada de metal que conduzia ao telhado da reitoria onde Dú prosseguia o seu mea culpa. Que ninguém lhe dava valor, que se chegavam a passar dias em que nem 20 escudinhos lucrava, que todos o consideravam um incompetente, um lixo ambulante, o parasita-mor de uma sociedade já de si tendencialmente parasitária, que nunca conhecera o pai, que não tinha onde cair morto… nem vivo, basicamente, não tinha onde cair… et caetera, et caetera (o seu discurso lamecho-romancezinho Danielle Steel ia amolecendo alguns dos presentes e fazendo saltar uma ou outra lágrima entre as senhoras mais emocionalmente vulneráveis)… que muitos o tinham por inculto mas que não, que era um grande apaixonado pelas letras, louvores à Claridade, a Teixeira de Sousa, Oswaldo Osório e até a Fátima Bettencourt (para quem aproveitava a ocasião e mandava mantenhas) mas que, entre todos, não conseguia deixar de reconhecer a grandiosidade de Pessoa. E nesse dia, tremeu a voz e pareceu limpar um ranhozito que descia pela narina castanha, nesse dia em que o poeta completaria 120 anos, decidira levar a cabo algo glorioso, algo memorável, não sabia bem o quê mas algo que não fosse jamais olvidado em cem anos, algo que inscreveria o seu nome no panteão dos imortais. E então viu-a. A culpa era dela que gostava de abanar as curvas pelas ruas como se não soubesse que era boa, feita mulher-volúpia que deixa os homens entregues às suas mais primitivas fantasias sexuais, e por isso mais belas. Por acaso a porta do prédio estava aberta, os vizinhos tinham aquela mania de passar os dias sentados em banquinhos coxos de madeira, com que ocupavam o passeio da Rua das Flores, e a beber cervejas desde as dez horas da manhã. Ora, já seriam umas sete e tal da noite quando ele passou ali, a vizinhança já tropeçava e não via ninguém, a própria D. Maria, quando espreitou pelo buraquinho da porta, nunca desconfiou. Abriu sem hesitar e enquanto se virava para a cozinha à procura de umas sobras de comida… um braço à volta do pescoço, um clic, arrastou-a para a cama para dar um ar de crime passional e aí divertiu-se a cortá-la toda. Minuciosamente. Só assim ficaria na história. Saiu já passava das quatro enquanto o prédio dormia e foi-se encostar, como de costume, à porta do Café Central.
Já ninguém chorava na assistência. O Dú não era nenhum coitadinho, era sim um criminoso sanguinário! E estava ali à frente de todos a assumir a autoria daquele homicídio horrendo, o mais espectacularmente visceral de que havia memória na Cidade da Praia. Uma voz anónima grita: Ó Ederlindo, então tu és polícia para quê? Estás aí mesmo a jeito e não fazes nada? Ederlindo, um dos poucos agentes já redondinhos da idade, bigode à português e mania de mandar fazer, saiu do transe em que se encontrava, olhou para cima onde Dú agora ria escancarada e escandalosamente mostrando com orgulho o meio dente da frente enquanto aterrorizava a população, e a primeira coisa que fez foi agarrar-se ao walkie talkie e pedir backup. Da rua ao lado, do supermercado Felicidade, chegam mais três agentes e os quatro sobem ao telhado em fila indiana a fim de prender Dú que não oferece a mínima resistência.

O caminho que o algemado percorre até à carrinha transforma-se numa tirada verdadeiramente hollywoodesca que ficará eternamente gravada na memória dos presentes em modo slow motion. Dú, de braços bem levantados a urrar gargalhadas doentias, quase tropeça nas suas vestes rotas mas nem por isso perde a compostura basofa qb de man of the moment; quatro agentes da Polícia Nacional em seu redor a abrir caminho e a afastar a população que, entretanto, já o queria desfazer das formas mais cruéis. Alguns exemplos de mimos atirados a Dú naquele caminho que viria a ser noticiado na imprensa como Dead Man Walking: N’ta matou (Eu Mato-te!); N’ta trou odjo (Tiro-te os olhos!); N’ta dou cu faca (Espeto-te uma facada!)… and so on, and so on. Nada disto assustava Dú que quanta mais injuria sofria, mais se divertia com a situação. Finalmente entrou na carrinha da polícia, acomodou-se na parte de trás, baixou as calças e colou as bochechas do seu rabo flácido e descaído ao vidro enquanto virava a cabeça para todos e deitava a língua de fora.

Levado a tribunal, julgado, culpado e encarcerado. Deveras comentado na imprensa, discutido nos cafés, invejado pelos pequenos delinquentes e temido pelas boas famílias. Com este homicídio Dú conseguiu definitivamente elevar o seu status: de quase-anónimo maltrapilho desgraçado passou a maior criminoso crioulo de sempre! Não é uma subida muito favorável, mas reconheçamos que é uma subida.

Os amigos e conhecidos da D. Maria Ramantxada sentiram a sua morte vingada e lentamente as suas vidas voltaram ao que sempre foram: aquele formigueiro tão praiense movido a curiosidade exacerbada em querer saber da vida dos outros.


A alma de Maria nunca descansou em paz.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Maria Ramantxada X (aleluia!)

“Boa tarde, senhores telespectadores, encontramo-nos aqui na conhecida pracinha da Escola Grande, na Cidade da Praia, onde uma manifestação de cidadãos sem precedentes clama por justiça.” A imagem abandona o sorriso amarelado da jornalista Tamblina Dias e concentra-se nas dezenas de pessoas lideradas por Santos-Lima, percorre a praça, foca os jogadores de xadrez da esplanada do Café Central, os bancos de jardim ocupados pelos miúdos que saíram do liceu e pelas mães que monitorizam atentas as brincadeiras dos filhos, voltando a centrar-se no tal sorriso sem sal. Tamblina Dias, jornalista das sérias, famosa pelo seu bordão linguístico de muito bem pronunciar os s’s finais de cada palavra, continua o seu discurso pausado elucidando que é deverasch extraordinária a forma como os cidadãosch da Praia aderiram em massa a esta convocatória lançada pelo Professor Doutor Santosch-Lima e pela jovem revolution Aristё, de quem, aliás, sou amiga íntima, pessoal e intransmissível há muitosch e longosch anosch. Vem Aristё falar aos senhores telespectadores lá em casa da urgência em mover as massas em prol dos nossos interesses e não dos do sistema; vem Santos-Lima, grave e pesaroso, a lamentar as infâmias proferidas contra a sua grande amiga e também a manifestar a sua profunda revolta contra a falta de actuação da Polícia Nacional, que ainda nada revelou sobre o autor do crime; vem o marido de Dirce, directamente de Lém-Cachorro, dizer que o resultado da autópsia foi conclusivo: ataque cardíaco fulminante provocado pela visão horrenda das partes do corpo assassinado da patroa; vem Arménio que começa por clarificar que não conhecia a senhora de parte alguma e que nem sabe bem por que está ali mas que, sim, agora que pensa nisso, talvez se lembre dela quando era jovem e não parecia pessoa de fazer mal a alguém (esquiva-se o mais depressa que pode); vem Améliazinha, na qualidade de vizinha-que-não-deu-por-nada, chorar um pouco em directo, que é muito bom para o share; vem Senhor Djony, dono do Covil, atestar que a pobre alma descansa em paz porque nada ficou a dever no seu estabelecimento; vem um qualquer poeta de renome com um poema improvisado a grogue para a ocasião (Maria hora di bai, nu fica li sem bu sabura…) e com semelhante procissão o sorriso de Tamblina Dias amarelece cada vez mais. Enquanto isto, outras pessoas vão-se abeirando da praça. Chegado das mesas do Café Central aproxima-se Adão Decente, hoje de pêlo capilar cor-de-rosa, acompanhado do amigo do costume e duas boazonas de um metro e noventa com poucos trapinhos a cobrir as curvas naturais. O escultor-barra-apresentador-barra-figura-pública deixa cair um audível “Ai não acredito que já me apanharam na rua, não consigo passar despercebido em lado nenhum, de certeza que me vão querer entrevistar”. O amigo e boazonas concordam prontamente, de facto é um cusa fastenta não poder andar na via pública à vontade. Uma adolescente de 13 anos aborda o apresentador para se certificar que ele é, de facto, o rapaz que ela vê na televisão, ao que o artista responde, bradando aos céus: “Eu não disse? Eu não disse? Oh fama inglória (costas da mão direita na testa), oh peso infame que a Arte me dá a carregar, oh…” e já ia embalado para duas horas de dissertação pública sobre o sofrimento atroz dos artistas se não tivesse proferido a palavra mágica, aquela que, onde quer que seja dita ou apenas segredada, dispara o mecanismo de Anacleto Swainsteiger qual alarme de bombeiros. “Arte? Falaram em Arte Contemporânea? Por acaso estava mesmo a passar aqui ao lado e pareceu-me ouvir…”. Mal Decente abanou a cabeça em concordância, Anacleto levou de imediato os dedos ao queixo mimando os seus pelinhos queridos em pose performativa.

De repente levanta-se um vento ruidoso e quente. O famoso vento-levanta-saias das ilhas. Traz consigo um odor estranho que faz toda a gente voltar-se na sua direcção. Mamã, cheira a chulé, diz a menina dos olhos de rebuçado à mãe, que encolhe os ombros. Não seria só cheiro a pé sujo mas uma simbiose de muito fedores e quanto mais o vento soprava mais se sentia aquela náusea entranhar-se em todos. Aristё aponta para o telhado da Reitoria da universidade, mesmo do outro lado da praça, vejam, está ali qualquer coisa! É um pássaro? - arrisca o fotógrafo paulista; não, parece uma avioneta – responde Elisabete que, pela primeira vez na sua vida, chegara sem ser notada. O homem em cima do telhado vira-se para a multidão e é imediatamente reconhecido: é o desgraçado roto maltrapilho que anda descalço pelas ruas a vociferar e a cravar cigarros, cujo fedor é mais intenso do que uma fábrica de celulose. Aaahhhh… os ilustres e anónimos cidadãos da Cidade da Praia deixam cair o queixo. Aaahhh… os telespectadores lá em casa. Até Tamblina Dias não teve reacção. Em directo. O homem conhecido por Dú abre os braços à Cristo-Rei, exibe as vestes (calças? Camisa? Não se percebe) de um castanho-merda extremamente gasto, escancara o sorriso mais psycho que alguma vez se lhe viu, deixa à mostra o meio dente da frente e com um urro assustador declara:

Fui eu que a matei! Fui eu! Matei-a, queimei-a e parti-a às postas! Fui eu, fui eu!!

Nem um pio na pracinha da Escola Grande. A televisão gravou tudo, o país parou.

domingo, 10 de agosto de 2008

Maria Ramantxada IX

Quando Aristё ouviu as ideias debatidas entre o professor Santos-Lima e o poeta Arménio, os olhos castanhos brilharam como lantejoulas em mini-saia de crioula, o sorriso abriu rasgado e sonhador, os irrequietos caracóis do seu cabelo espetaram-se (ainda mais) no ar e gritou, qual Salgueiro Maia frente ao Carmo: MANIFESTAÇÃO! REVOLUÇÃO!
Lutar por um ideal (quanto mais utópico melhor) e levar Cabo Verde ao pódio dos países mas desenvolvidos (outra grande utopia) eram o sal da vida desta jovem para quem todos os dias eram potenciais conquistas. Vivia, respirava, sonhava e aclamava o mito: Cabral! A força de Cabral, o pensamento de Cabral, a luta de Cabral e, consequentemente, as campanhas de cidadania e afins em nome de Cabral. Magra, alta, cor de café com leite, vestia sempre roupas largas, de inspiração rastafari, que não salientavam a sua figura atlética mas sim as suas convicções mais profundas: gorro de lã à semelhança do que Amílcar Cabral usava, t-shirts largas com mensagens ecológicas (Salvem as Nossas Tartarugas Já!), políticas (Fuck Dictatorship!) ou simplesmente motivadoras (A Melhor Forma de Prever o Futuro é Criá-lo!), calças de ganga surradas e havaianas gastas pelas muitas caminhadas já efectuadas pelo interior da ilha de Santiago. Aristё não era dada a namoros, embora já lhe tivessem sido atribuídos muitos. A culpa era certamente dos seus intensos olhos castanhos, ligeiramente caídos como os do seu pai, doces, de mel, tão inocentes e sonhadores como os de uma criança de oito anos. Era com esse olhar que arrebatava até os corações mais duros, com o seu optimismo teimoso conquistava a simpatia de todos, com a sua inteligência e dinamismo a admiração geral da cidade. Era preciso organizar uma manif de um dia para o outro? Aristё! Dar a cara por alguma causa humanitária? Aristё! Reunir voluntários para limpar a imundície das praias de mar? Aristё! Fazia tudo o que pudesse, e o que não pudesse arranjava maneira de poder, pelo povo e sobretudo contra o sistema! O que era o sistema? Bem… isso era uma questão que fazia a jovem cabo-verdiana subir ao palanque por horas a fio fazendo com que até os seus amigos, por vezes, bocejassem. O sistema, nas palavras da própria Aristё, é tudo à nossa volta, toda a podridão do comodismo institucionalizado, a atitude generalizada de recusa de eficiência, o meter ao bolso dos governantes, o desleixo para com os que realmente necessitam de ajuda, os Prado shinning new a 140Km/h dos que estão no poder, o estado caótico a que chegou a gestão da cultura cabo-verdiana… et caetera, et caetera.
Quando a jovem recebeu o telefonema de Santos-Lima ficou a saber que este pretendia desmascarar as informações erróneas divulgadas por Vivian Espírito-Santo de Totta & Açores e que planeava um estrondoso movimento de cidadania em defesa da honra e virtude imaculadas da amiga. (MANIFESTAÇÃO! REVOLUÇÃO!) O professor encontrava-se mesmo em processo de negociações com a televisão nacional a fim de obter um prime time (antes ou depois da novela, claro, nem ousaria propor que a tirassem da antena por uma noite que fosse) onde pudesse reunir as pessoas que realmente conheceram a senhora dona Maria, mulher ímpar e marcante mas neste momento objecto de calúnias infundamentadas. Para isso necessitava do savoir-faire de Aristё em matéria de organização quase-instantânea de tal evento monumental. Recordou, com uma lágrima, o vigor e o sorriso de Maria e Aristё acedeu num segundo. Também ela se tinha habituado às ancas de Maria Ramantxada a saracotear no Plateau, ao seu habitual “Bons dias, passou bem?” e estava, sobretudo, horrorizada com tal crime brutal. Se era para apanhar o culpado e prever futuros homicídios que contassem com ela. Hasta la Vitória. Siempre!
Num minuto e meio Aristё abriu o seu Asus cinzento e preto numa dessas pracinhas onde se surfa na Internet gratuitamente e enviou um e-mail colectivo a mais de metade da Cidade da Praia, vulgo gente-mais-que-influente, a convocar para a grandiosa manifestação em defesa do bom nome da Senhora Dona Maria. E também em protesto declarado contra o jornalismo vergonhoso praticado em Cabo Verde. E já agora, pensava Aristё com os seus caracóis, também se aproveitava para mandar umas bocas ao sistema. Orgulhava-se imenso dos seus conhecimentos de informática e web. Gostava de sair à noite com os amigos e, de vez em quando, deixar levar-se por um bom krioulo, mas o que a punha em verdadeiro êxtase, quase tanto como repetir in viva voce o testemunho de Cabral word-by-word, era perder-se nas inúmeras funcionalidades do Excell e do Outlook, do iGoogle e do Blogger, do Windows Altavista e do Linux, enfim, de todos os zeros e uns que compõem o sistema (este bem mais benéfico para todos) informático em rede.
Profissional e irresistível como sempre, as suas palavras foram cegamente cumpridas por todos aqueles que receberam o seu mail. E assim, no dia seguinte, às 18h30 em ponto (feito notável na História de Cabo Verde), uma vasta multidão surgiu da Rua dos Prazeres, com Santos-Lima na dianteira, atravessou a esplanada do café central (o jogo de xadrez foi imediatamente cancelado) e instalou-se, à espera de outros tantos, no jardim da praça em frente à Reitoria.
Arménio, impávido, assistiu a tudo da porta duma tasca muito ranhosa ali do lado, o PéXungosodiPomba. Tou fodido, soltou-se baixinho da sua boca. Despejou um grogue garganta-abaixo, acendeu um Gigante e, de camisa aberta e transpirada até ao umbigo, passos lentos a marcar 10 horas e dez minutos, foi placidamente juntar-se à multidão.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Maria Ramantxada VIII

Venho em missão de paz, venho em missão de paz, já se ouvia lá do fundo, da porta da escola grande, à chegada da esplanada central. Os jogadores de xadrez voltam a cabeça e acompanham a chegada do Professor, gesticulando no meio dos seus eternos papéis, tentando fechar a malinha de couro académico que se recusava a enclausurar outros tantos documentos, óculos impreterivelmente encavalitados, blusa branca bordada com pano di terra dos lados. Santos-Lima. Chega com um “Ai, eu hoje estou de todo!” e ignora os olhares curiosos que despontam em seu redor. Pousa os papéis numa mesa ocupada apenas pelo faz-nenhum habitual, ser invisível para a maior parte da comunidade, olha em volta e, não vendo quem procura, atira o seguinte míssil: Venho falar com o Arménio! Ninguém ousou responder, os senhores limitaram-se a trocar olhares com cara de quem vê as nuvens a prometerem tempestade. Mas estarão vocês destituídos do dom da audição?, insiste o professor. Onde está o Arménio? Já disse que venho em missão de paz!
Era uma história mais contada do que a di nhu Lobu ku xibinhu, mais repetida do que os contos basofos de engates a meninas de quinze anos, tão secular quanto o achamento das ilhas: a grandiosa desavença entre o poeta e o catedrático há mais de vinte anos que tinha resultado num desafio de espada numa alvorada no Monte Tchota. Só um poderia sobreviver e os dois juram que só não mataram o outro a sangue-frio porque tiveram o azar de se desequilibrarem com um forte terramoto que assolou Santiago nessa manhã. O motivo verdadeiro nunca se soube mas muito se especulou. Hoje cada um conta o mito à sua maneira, enaltecendo a sua própria figura, claro está, e sublinhando a fraqueza física e sobretudo moral do adversário.
- É este o dia em que finalmente vou ter o prazer mais do que adiado de te decapitar, ó professoreco? – ouviu-se um catarro com cheiro a Marlboro mesmo à entrada do café.
- Deixemo-nos desses argumentos dantescos e façamos o obséquio de partilhar a mesma mesa durante uns minutos. Acredito que o assunto que me traz aqui seja do teu interesse e estou num estado tal de revolta que já nem me importo com os microfones escondidos no jardim. Olha, já estou a ver ali um! É sobre a Maria. Urge quebrar este silêncio pelo amor que, irremediavelmente, sempre nos uniu àquela mulher.
Arménio deu mais duas passas impossíveis naquela ponta de cigarro já decadente, vociferou um “oh fofa traz-me um grogue” à empregada do café (não é curioso que se chamem em-pregadas às pessoas que passam o dia precisamente pregadas ao chão?), afastou uma cadeira com estrondo e sentou-se. Santos-Lima admitiu, antes de mais, estar em absoluto estado de choque com a desgraça que se abatera sobre Maria e logo naquele dia, dia de Pessoa, em que ela estava tão feliz! Tinha ânsias de descobrir o autor do crime, não entendia porquê, porquê, e direccionava toda a sua raiva à jor-na-lis-ta-zi-nha-sem-ei-ra-nem-bei-ra que se tinha corrompido ao veneno saboroso do sensacionalismo e, em busca de uma manchete (também o professor era crioulo e, encontrando-se em estado de nervos agudo, deixava soltar por vezes um brasileirismo), não tinha feito na-da-mais-na-da-me-nos do que manchar a reputação da nossa caríssima. E ele, Santos-Lima não poderia permitir tal abuso. Já bastava ter de se conformar com a ausência fatal da amiga querida, já bastava ter de viver…
Tiveram de interromper a conversa ali mesmo. Há situações que nem o mais feroz dos terramotos consegue parar e neste caso, nesta esplanada da Cidade da Praia, é a chegada diária da dona do café. Elisabete estaciona o robusto jeep vermelho na lateral da praça mesmo ao lado do jogo de xadrez… que já não vai a lado nenhum. Há quem aproveite até o pasmo geral para, num passe rápido de mestre, movimentar uma ou outra peça sem ninguém ver. Elisabete sabe que esse é o seu momento. Demora cinco a dez segundos a sair do carro, coloca os grandes óculos de sol Donna Karan no rosto, solta os cabelos longos ondulados, e eleva o pequeno controlo remoto do veículo acima do ombro esquerdo trancando-o e prevenindo-o contra os eventuais assaltos. Quando a máquina solta o pi e acende todas as luzes dos faróis, Elisabete sabe que só tem de percorrer os dez ou quinze metros por entre a esplanada que a vão levar à porta do café. Alta, magra, elegante, soberba de Itália, ninguém diria que já é avó. Abre um sorriso aos velhotes do xadrez, acena-lhes um bom dia que os faz sonhar com boas noites e vai sambando lenta no alto das suas sandálias Louis Vuitton enquanto carrega o saco de uma qualquer marca internacional, que agora não me ocorre qual, onde, por certo, depositará os seus pertences de inquestionável mulher de negócios variados. Vai lenta e soberba, em estilo de Princesa Diana a atravessar a multidão de fãs, e ocasionalmente até atira beijos às amigas ou conhecidos que vê sentados nas suas mesas. Gosta de manter a pose, aquele ar de deusa acidental que nada faz para tal e sorri, sorri muito em redor. Sabe que deixa os homens descontrolados e as mulheres com olhos em bico. Quando pressente um olhar mais atrevido solta uma gargalhada sonora e volta a mandar os fios de cabelo para trás dos ombros. Entra no café, a vida volta à normalidade para todos. E assim Arménio e Santos-Lima podem, finalmente, continuar a conversa.

domingo, 27 de julho de 2008

Maria Ramantxada VII

Três, dois, um, o sinal acende-se: No Ar!
Boa noite, Cabo Verde, hoje é sexta-feira, dia de comentarmos a imprensa semanal aqui no Grau Zero, o programa intelectual da televisão nacional. Comigo no estúdio tenho os comentadores habituais…
Era sempre assim no último dia da semana. Adão Decente ocupava o pequeno ecrã com o seu rasgado sorriso branco de dentes meticulosamente coordenados, arranjados e polidos. Era um comunicador nato, apresentador de vários programas de televisão, imagem de marca de variadas campanhas de saúde, de cidadania e de desporto. Adão era o que se podia chamar o namoradinho de Cabo Verde quer na popularidade que conseguia reunir, quer no número de fãs histéricas, normalmente miúdas de liceu, que o perseguiam nas ruas. Nem trinta anos tinha mas pose de quem já viu e viveu tudo, já desbravou mares nunca antes navegados, conheceu um número infinito de mulheres, continentes misteriosos, experimentou o exotismo de cada lugar por onde passou, leu tudo, ensinou mais ainda e esculpiu… esculpiu o mundo que se vergava a seus pés. Adão Decente encarnava na perfeição os ideais decadentistas dos poetas franceses de fin de siècle, Baudelaire, Verlaine, je suis l’empire à la fin de la decadence, respirava as imagens por eles criadas do artista como uma ave solitária, dolorosamente encerrado na sua torre de marfim lá do alto onde contemplava a Decadência Generalizada, Nós, Cidadãos Comuns, Meros Mortais que habitavam a Cidade da Praia. Dessa certeza de ser diferente, desse impulso de se sentir único, nascia a necessidade de Adão se mostrar irreverente, peculiar, europeu em África. Embora Cabo-Verdiano de nascença, muito cedo se tinha acostumado a fazer as malas e a conhecer novos lugares. A sua vida de saltimbanco tinha começado ainda em criança, rodando os vários lares de adopção das ilhas: Mindelo, Tarrafal de S. Nicolau, Vila de Sal-Rei, S. Filipe do Fogo e, por último, Praia, quando já era um rapazinho de doze anos. Cedo entendeu que era diferente dos outros meninos e precocemente perseguiu o sonho da escultura, resultado duma noite em que fora esquecido na sala de leitura da Biblioteca Nacional pelas acompanhantes do lar. Nessa noite branca, tendo à sua disposição todas as salas normalmente vedadas ao público, Adão Decente apaixonou-se por Miguel Ângelo, pela sua Capela Cistina mas sobretudo, e com fervor religioso quase doentio, pelo David: homem de pedra mais perfeito do que os mortais, mais macio do que os ombros de uma mulher, mais voluptuoso do que o colo de uma meretriz. Nesse dia Adão prometeu a Deus que iria esculpir o David cabo-verdiano tão perfeito como o italiano. E chamar-lhe-ia Adão, nome do primeiro homem na Terra, nome que esconde alguma pureza virginal, nome da mente genial que o terá criado.
Cresceu, estudou muito, conseguiu todas as bolsas de estudo a que se candidatou e que o levaram à Europa e ao Brasil. Ingressou nas Belas Artes de Lisboa e desde o primeiro dia começou a trabalhar concomitantemente num barzinho reles da zona de Santos com o objectivo de juntar dinheiro para ir a Florença. No final do curso foi de comboio e mochila às costas. Quando, glorioso, pagou o bilhete de estudante na Galleria dell' Accademia e entrou no grande salão de exposições, sentiu-se pequeno, minúsculo. Virou à esquerda e aí, ao fundo do corredor ladeado por esculturas inacabadas, esculturas-ensaio, o Grande, o Incomensurável, o Magnífico David. Como era ainda mais belo ao vivo, colocado naquele pedestal e iluminado por aquela cúpula de vitrais azuis e amarelos por onde entravam os raios de sol florentinos e tornavam David num Deus pagão. Rodeou-o, estudou-lhe minuciosamente as articulações, as veias, falange-falanginha-falangeta, as unhas os joelhos, o sexo, admirou a serpente que se cruzava nas suas costas e que o herói empunhava em pose de vitória, a curva dos ombros alvos, o pescoço com as suas veias salientes, o rosto de menino, os olhos redondos, os lábios finos, os caracóis clássicos dos cabelos. David, a obra-prima. Adão, o aprendiz encantado.
Quando voltou a Santiago trouxe consigo aquela iluminação que só a Arte renascentista lhe poderia proporcionar e começou de imediato a criar. Encontrou em atelier abandonado em Achada Grande e aí, com vista privilegiada para o Plateau, esculpiu o que a sua imaginação lhe soprava dias e noites a fio. Aos vinte e sete anos já era senhor de uma carreira artística consagrada, já considerava essencial apresentar-se ao público de forma excêntrica, tão excêntrica quanto a sua obra. Fez do seu próprio cabelo a sua imagem de marca: ora azul, ora vermelho, ora verde. Assim era Adão, o mais metrosexual dos cabo-verdianos, o que mandava vir cremes La Mer de Lisboa e camisas Giorgio Armani, o que mudava a cor dos seus caracóis todas as semanas e era odiado por uns e venerado por outros. Aparentemente indiferente aos comentários, continuava a cultivar a sua diferença e nem as comparações a Anacleto Swainsteiger o incomodavam… aparentemente. Swainsteiger era outro escultor da Cidade da Praia famoso pelas suas intervenções públicas sobre Arte Contemporânea mas, acima de tudo, pela sua pose de Rodin que insistia em fazer sua. Também por volta dos trinta, Anacleto, de cabelo rapado, pêra negra de artista, bigode reminiscente de Hitler e olhos verdes bifurcantes, gostava de ser apanhado a elevar o queixo ligeiramente para o lado direito e assim, no ar, acariciá-lo com o polegar, o indicador e o dedo do meio. Estes últimos não se mexiam, só o polegar tinha o direito de mimar contemplativamente aquele queixo de artista. Decente e Swainsteiger encontravam-se amiúde em acontecimentos públicos, vernissages, eventos culturais, muitas palmadinhas nas costas como convém a um bom pseudo, elogios rasgados à obra do “prezado colega” como convém a um bom hipócrita, partilha de teorias artísticas com quem quisesse ouvir… mas quando tudo acabava, as luzes se apagavam e o pano descia um ódio inexplicável os consumia. Um ciúme não sabiam de quê. Ímpetos violentos, quase assassinos.

Quando a morte da Dona Maria Ramantxada, residente na Rua dos Prazeres, se tornou pública pela voz de Vivian Espírito-Santo de Totta e Açores ambos negaram conhecer tal senhora. Esquivaram-se, cada um à sua maneira, aos comentários de café sobre o caso escabroso, remeteram-se ao silêncio da sua Arte. E nesse fim-de-semana de 14 e 15 de Junho esculpiram e choraram. Decente tentou uma fraquinha La Pietá, mas na sua versão o filho carregava a mãe no colo. Swainsteiger, mais visceral, esculpiu pedaços de corpo feminino sem nexo e no final, já na alvorada, cuspiu o seu desespero despejando várias embalagens de ketchup em cima da obra-prima.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Maria Regateira ou Maria Ramantxada VI

Améliazinha acordou num sobressalto com os gritos que ecoavam no prédio. Acudam, acudam, chamem a polícia, um médico! Ainda em pijama e de cabelo desgrenhado, a professora veio espreitar às escadas e viu um sobe-e-desce apressado, um frenesim de pessoas que subiam ao andar por baixo do seu, entravam em casa da Dona Maria, soltavam um “ai que horror!” ou um “ai que impressão, credo!” e voltavam a descer até à rua. Ai meu Deus, Nossa Senhora de Fátima, bradou a professorinha para si própria, só pode ter acontecido alguma tragédia à vizinha. Ai valha-me Deus, deixa-me ir lá!
Com licença, ouvia-se uma vozinha fininha, meiguinha, docinha. Vozinha de diminutivo tal como a professorinha. Améliazinha. A terra que vira Maria Amélia nascer nem vila chegava a ser, era um daqueles lugares ermos, perdidos nas montanhas áureas de Trás-os-Montes, norte de Portugal, sul da Europa. Quando lhe perguntavam de onde vinha, ela respondia com ar de quem acabou de entrar pela porta dos fundos sem pedir licença, sou de Trás-os-Montes. Ligeiro, rápido e concomitante subir de ombros, olhos baixos de provinciana, maçãzinha do rosto timidamente ruborizada. Concluíra o curso de Língua Portuguesa na Universidade da Beira Interior e, não tendo reais perspectivas de emprego no seu país, decidiu candidatar-se a um daqueles programas europeus de nome complicado cujo objectivo implícito é “ajudar os coitadinhos dos pretinhos de África!”. Ora, tendo sido seleccionada, Maria Amélia, natural de Lugarejo-Nenhum, sentiu-se a Angelina Jolie versão Tuga: iria em missão para África ajudar os pobrezinhos. Coitadinhos! Chegada à Cidade da Praia muito se comoveu com as criancinhas desgraçadinhas da sua escola primária em Safende, muito chorou, triste e impotente, com os meninos de rua, os que pedem 5 escudos e um pão para comer, muitas bolas de berlim distribuiu pelas bocas esfomeadas, sujas e ainda com dentes de leite… enfim, Maria Amélia esquecia-se dos seus 34 anos de vida (namorado? Ai Jesus, era o que me faltava! Agora um homem para me vir tirar o sossego, não não, nessa não caio eu!) e dedicava todo o seu ser altruísta à ajuda voluntária aos necessitados, fracos e oprimidos.
Ao entrar em casa da vizinha viu as fardas da Polícia Nacional a farejar cada canto. Mas o que aconteceu? O que se passa? A Dona Maria sabe que estão aqui a bisbilhotar-lhe a casa toda? – inquiriu a vozinha de cana rachada. Ó menina, então não sabe que a Dona Maria foi brutalmente assassinada? A menina afinal quem é? Vizinha de cima? Então alto lá que já não vai a lado nenhum, precisamos falar consigo. Se forem lá bater os da Judiciária a menina não responda a nada e diga que quem está a tratar disto é a Polícia Nacional, está bem?
Coitadinha da Améliazinha que já nada ouvia e mesmo a figura do policial, que até era bem parecido, se desvanecia à sua frente. Brutalmente assassinada? Mas como? Por que motivo? E por quem?
Estando Amélia nestas reflexões nem se apercebeu de alguém que entrara com espalhafato. Só quando sentiu um encontrão no ombro é que despertou e viu. Viu-a. Não se conheciam mas eram uma espécie de arqui-rivais: uma era do Bem e outra era do Mal. Uma queria ajudar, a outra queria lucrar. Uma era Améliazinha, coitadinha, e outra era Vivian Espírito-Santo (Totta & Açores por matrimónio), jornalista classe A da televisão privada com mais audiência do país.
O metro e oitenta de Vivian, magra de cabelos escuros e escorridos que se demoravam em brilho até ao meio das costas, contrastava severamente com o metro e sessenta e cinco do corpinho gorducho de Améliazinha e respectivos caracóis loiros sempre escrupulosamente colocados atrás das orelhas. Vivian tinha a capacidade de entrar numa sala e deixar todos boquiabertos com a sua presença, a altura dos seus tacões Manolo Blahnik, a tez incrivelmente morena e uma voz autoritária, grave, de comandante. Era a cara da televisão privada cabo-verdiana Pivêt, contratada em Portugal por alguns milhões para vir aproveitar-se da miséria dos pretinhos de África. Coitadinhos! As condições que a jornalista tinha imposto para deixar a sua casa de Cascais e vir para o foco do Paludismo eram claras e estavam à vista de todos: mansão a paredes-meias com a do Presidente da República Pedro Pires, AUDI A4 com motorista privado, fins-de-semana na Europa para se inteirar das notícias do mundo de quinze em quinze dias e um salário com muitos zeros. Ao concluir a licenciatura em Comunicação e Marketing, Vivian tinha feito um juramento de honra à bandeira do Sensacionalismo, seu Deus em todas as horas da noite e do dia a quem votava a sua mais sincera dedicação. Ainda na semana passada, uma menina de onze anos terá sido alegadamente violada numa dessas aldeias do interior da ilha de Santiago. Imediatamente o AUDI pôs-se a mexer em direcção à notícia porque o público merecia saber 1. quem é a menina em questão; 2. quem são os seus pais, amigos e vizinhos; 3. como decorreu o processo da alegada violação ao pormenor, a saber: doeu? Não doeu? Se doeu, doeu muito? De zero a dez em quanto classificaria a dor? E sangue, terá a menina perdido? Muito ou pouco? Bem, vamos lá ser precisas, dava para encher um copo de água?
Vivian sentia-se satisfeita com o exercício da sua profissão. Ao jornalista cabia dar a informação, claro, mas também torná-la minimamente interessante, senão quem prestaria atenção ao seu bloco noticioso? A guerra das audiências era uma realidade e não seria ela, Vivian Espírito-Santo de Totta & Açores que iria ficar a perder.
Naquela manhã de meados de Junho ouvira dizer que alguém tinha sido brutalmente assassinado no Plateau. Vivian nem esperou que o motorista acabasse de polir o Audi, enfiou-se num táxi com o seu operador de imagem e lá foi em direcção à Rua dos Prazeres. Ao chegar à porta do prédio quis saber quem era a vítima. Maria Ramantxada? Que nome estranho, é pouco, tenho de arranjar mais pormenores e sobretudo sensacionais. Um breve inquérito no Covil deu-lhe o que precisava: com que então fama de ser deveras namoradeira…

Notícia de abertura do telejornal das 20h na Pivêt:

Uma mulher de cerca de cinquenta anos, e comportamento moralmente duvidoso, foi encontrada morta na sua casa no Plateau, na Cidade da Praia. (Os dentes brancos imaculados continuavam) Ao que a Pivêt conseguiu apurar, esta senhora dedicava-se a roubar os maridos alheios, logo terá sido obviamente assassinada e totalmente desmembrada por alguma esposa zelosa que, naturalmente e com toda a razão, vingou os desvairos adúlteros do seu marido com a referida senhora. Gostaríamos de acrescentar que é bem feita e que as autoridades competentes deviam legislar medidas contra estas mulheres sem vergonha que só sabem roubar os maridos das mulheres decentes.
Com o rigor e a isenção a que já o habituámos, uma reportagem de
(aquele sorriso brilhante e envaidecido) Vivian Espírito-Santo de Totta e Açores.

domingo, 13 de julho de 2008

Maria Ramantxada V

Quando as lojas comerciais fecham as portas e as pessoas começam a recolher às suas casas, o Plateau vai lentamente perdendo a vida. Uma ou duas mãos de gente à espera dos últimos autocarros, apoiando numa das pernas o peso do dia; alguns rapazinhos jogam à bola no meio da merda espalhada nos becos da Ponta Belém; uma mulher rota escrutina uns sacos de lixo esquecidos num poste; um louco imundo dorme na porta duma casa e sonha que é rei; dois miúdos da vida vagueando perdidos em busca de vinte escudos; as portas do único hipermercado, curiosamente chamado Palácio do Consumismo, escancaradas debochadamente até tarde para quem ainda quiser vir comprar.
Às 20h00 são cada vez menos os que se passeiam pelo centro da cidade e é a esta hora que o poeta deixa o seu castelo. “Irreverente e indomável espadachim da sorte e da morte, poeta de vento sem tempo”, Arménio Vieira é, antes de qualquer outro atributo, antes até de ser Arménio, o Conde: auto-denominado com orgulho e amiúde referido por todos os que o conhecem com certa reverência. Arménio, como todos os poetas, é um animal noctívago, não por recusar as delícias do dia mas por insistir em escrever apenas à noite. Começa por sair quando todos os outros regressam e vai pelas ruas desertas, só ele e os cães sarnentos, a recitar Rimbaud, Borges, Baudelaire, Pessoa, tiradas inteiras da Eneida, da Odisseia, o seu prazer literário não tem fim. Esta é a hora em que permite que os alucinantes relâmpagos que lhe ocorrem durante o dia na esplanada central, local diurno de culto perseverante, assentem na poeira da mente e o labor do artífice o domine. Fuma um Marlboro atrás do outro e murmura e recita-se. É um grande egocêntrico, ama a sua lírica acima de todas as outras. É o “tal poeta vadio que olha para as nuvens a ver se algum anjo deixa cair o cigarro”. Já passou certamente a casa dos cinquenta mas conserva um sorriso de puto atrevido que, juntamente com a franjinha preta desordenada e uma ligeira sarda na bochecha, lhe emolduram uma expressão quase pueril.
Todas as manhãs, sem falhar uma, Arménio sai do seu castelo, casa secular, imponente e decadente, como convém a um verdadeiro poeta, no centro do Plateau e desce a rua até à esplanada central coberta por três grandes guarda-sóis. Cabelo oleoso por regra, ligeira queda na nuca que, de uma maneira muito estranha, o assemelha ao Papa Bento XVI, camisa solta e coçada, irremediavelmente aberta até quase ao umbigo, ligeiro vislumbre dum colar fino de ouro, calças de ganga dobradas em baixo a fazer lembrar um banhista em férias, havaianas azuis incrivelmente modestas que suportam o peso da criatividade e da (os ingleses diriam, e bem) uniqueness de ser Arménio. Ossos das ancas ligeiramente inclinados para a frente (a marcar dez horas e dez minutos no relógio do seu corpo magro), andar descontraído, ponta de cigarro a queimar entre os dedos da mão direita nem que chovam picaretas, Arménio Vieira, o tal que grita:

“Os sapos coaxam, os corvos crocitam,
Cristo falava, Paulo escrevia. Eu sou
como sou. Tenham paciência.”

Passa o dia à volta duma mesa a conversar com os amigos, debate assuntos tão ecléticos como desporto, mundo animal, mulheres, história, política nacional e internacional, literatura e arte em geral; é viciado no tabuleiro de xadrez (a tal ponto que junta sempre uma plateia atenta de jovens à sua volta) e um mulherengo incorrigível. Mulheres não lhe faltam mas considera-as vãs. Quando qualquer par de nádegas sai de cima de si num suspiro final meio abafado, Arménio só pensa em masturbar-se logo a seguir. Não tem prazer, ninguém lhe sabe a nada. Desde aquelas ancas volumosas de há mais de trinta anos, do cheiro a volúpia e a pecado que ela guardava na dobra do pescoço, desde as noites de sexo gritado e espancado, de versos obscenos sussurrados numa mordidela, desde esses tempos que o poeta não conhecia o verdadeiro sabor do amor sexual, o tal que não se compara a qualquer tipo de vulgar brio de corpo. Desde que Maria, de tamanco na mão, lhe apregoara em tom alto e assertivo “Nunca mais te quero ver” ele decidira não mais amar, não mais se entregar a quem quer que fosse. Cumpriu o pedido e nunca mais a procurou. Se por ventura a visse passar na praça da esplanada, a dois metros de si, fazia de conta que aquelas ancas roliças e aquele peito almofadado nunca tinham sido beijados por si. Nunca tinha mordido aquelas pernas, não conhecia de cor o cheiro do seu cabelo.

domingo, 6 de julho de 2008

Maria Ramantxada IV

Dirce levantava-se todos os dias pontualmente às 5h45. Erguia-se da esteira cautelosamente para não acordar o marido, enrolava o longo lenço verde na cabeça deixando só um pouco de cabelo descoberto, vestia uma túnica, garrafão de plástico na mão, abria a porta sem fazer o mínimo ruído, deixava-a encostada para não bater e saía em direcção ao chafariz. O chafariz do bairro periférico onde morava, Lém-Cachorro, era paragem obrigatória para todas as mães de família a partir das primeiras horas da manhã. Sem água canalizada, teriam de ir buscar os litros necessários para a lida diária. Garrafão equilibrado na cabeça, mão na cinta, voltavam para casa, acordavam os maridos e os filhos, faziam o pequeno-almoço, deixavam as crianças a alguma velha que olhasse por elas, juntamente com uma embalagem de papas para bebé e uma peça de fruta embrulhadas num saco de supermercado, e partiam para o trabalho. Trabalhavam na cidade para as senhoras que tinham dinheiro, dedicavam dez horas diárias à casa e à família de outra pessoa, cozinhavam, limpavam, lavavam, passavam a ferro, cuidavam e ensinavam as primeiras palavras aos seus filhos por dois tostões mensais. Ao final do dia, cansadas das vidas dos outros, voltavam às suas, recolhiam ao bairro, iam buscar a prole que já nem sentia a sua falta, preparavam o seu jantar, arrumavam a sua cozinha, viam a novela e caíam de novo na esteira. Dirce era uma destas mulheres-coragem, mulher teimosa que não quebrava nem cedia. Todos os dias, sem falhar, Dirce chegava pontualmente às 8 horas da manhã à Rua dos Prazeres. Abria a porta e encontrava a D. Maria, já pronta para sair, a tomar o pequeno-almoço.

Aquela manhã de 14 de Junho não era diferente: chave a rodar na fechadura, a sala iluminada pelo sol, na banca da cozinha alguma loiça à espera de ser lavada… e D. Maria? Por que não estava sentada à mesa a ver as notícias da RTP África e a comer torradas com mel? Dirce pensou que talvez a senhora tivesse adormecido. Procurou não fazer barulho enquanto organizava a loiça para lavar. A atmosfera da casa estava pesada, Dirce arrepiou-se e não compreendeu porquê. As janelas estavam fechadas, nem uma ponta de corrente de ar. Enquanto misturava o detergente na bacia com água, sentia alguém a mirá-la fixamente. Voltava-se para trás e nada, ninguém. Mas alguém a observava, ela sentia que alguém a rodeava, praticamente lhe passava os braços pelo pescoço e quase a esganava. O que era aquilo? Decidiu parar com a lavagem da loiça e percorrer todas as divisões da casa, certificar-se de que a D. Maria dormia de facto. Saiu da cozinha, atravessou a sala, espreitou a casa de banho à esquerda, nada, tudo na mesma. Continuou a caminhar pelo corredor em direcção aos quartos. Engoliu em seco. Um peso no coração, um aperto no peito, declarada falta de ar. O quarto de visitas estava exactamente como o tinha deixado na tarde anterior, até a tábua de passar a ferro ainda estava montada. Só faltava o quarto da senhora, mas Dirce agora sentia que algo definitivamente não estava bem. Teve medo de seguir em frente. Parou diante da maçaneta. Ia espreitar de mansinho, a senhora que desculpasse mas ela não descansava enquanto não visse com os seus olhos que estava tudo bem. Rodou a maçaneta doirada, a porta abriu lentamente com um contínuo mas quase imperceptível gemido de suspense semelhante aos imortalizados por Hitchcock.

A claridade que inundava o quarto era tão berrante que, num primeiro segundo, cegou a jovem criadita. Levou a mão aos olhos tentando proteger-se da luz feroz e quando os voltou a abrir

A boca escancarou

O coração esbugalhou

O corpo petrificou

e Dirce, inútil, caiu no chão, peito para o céu, os olhos completamente abertos quão inertes, a boca em ó e uma expressão de verdadeiro terror que lhe perpassava o corpo hirto.

Em cima da cama, pedaços de Maria. As pernas simetricamente dispostas em V, salientando-se o sexo totalmente carbonizado, um braço esquecido debaixo duma almofada carmesim, o tronco nu e esventrado por entre os lençóis ao centro da cama e a cabeça, negra e esmurrada como uma bola de futebol aos noventa minutos, tinha caído da cama e rolado até ao banco da cómoda onde Maria se costumava maquilhar.

Duas mulheres mortas num quarto espirrado a vermelho-vivo!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Maria Regateira ou Maria Ramantxada III

On that particular morning, 13 de Junho, sexta-feira, Maria acordou num súbito soluço convulsionado como se só naquele segundo em que despertava para o dia conseguisse respirar. Antes de ganhar consciência do seu quarto, antes de fazer um pequeno esforço que a transportasse de volta ao onírico e a fizesse compreender o pesadelo de que acabara de sair, antes sequer de conseguir desembaraçar completamente as suas pestanas arrebitadas da viscosa remela teimosa que as assaltava, Maria pensou em Pessoa. Dia de Pessoa. Arqueou ligeiramente a sobrancelha direita, movimento físico-cerebral quase imperceptível que a levava a percorrer os gavetões da sua memória, os seus personal x-files, e quando deixou soltar o primeiro bafo da manhã de marca papéis de música declarou “1888-2008: 120 anos. Se Pessoa fosse vivo fazia 120 anos.”
Acariciada pelo véu turvo e quente do poeta, vagueando já sonhadora pelos seus versos, Maria encurtou a distância para o xixi matinal enquanto levantava o braço esquerdo e, em jeito de hino, entoava “Ó mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal” ou então, de queixo levantado e mão na anca, “O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.” Com isto batia sonoramente a mão no peito e com quanta mais força batia maior era a suposta dor do poeta sentida por si.
Naquela manhã especial de 13 de Junho, sexta-feira, dia de Pessoa, nem uma nuvem no céu de Santiago, um sol claro e juvenil, Maria cantarolava no chuveiro, recitava Pessoa-Caeiro-Reis-Campos, misturava os versos num êxtase tal que decidiu imediatamente coroar-se com uma espuma de banho única que guardava no fundo do armário azul desbotado da casa de banho e que reservava exclusivamente para as noites quentes e especiais de prática selvagem de hipismo na rede vermelha. Sentia-se mais atraente quando emergia daquela espuma red mint passion que lhe trouxera uma amiga de Lisboa. Hoje, Maria Regateira iria dedicar o seu brio ao mais notável poeta português.
Cheirosa de volúpia, decidiu-se, perante o roupeiro aberto, pelo vestido de roda escarlate que muito lhe favorecia o decote. Lingerie a condizer, tamanco branco, três ou quatro espirros de gel ultra-mega-não-há-melhor-fixante-rasca na pala, grossas argolas douradas, uma dezena de pulseiras prateadas a tilintar no pulso esquerdo, carteira de couro preta na axila de onde espreitavam uns pelos escuros e… 8h15 pontuais: o tacão beija o passeio. Ora muitos bons dias! Bons dias, como tem passado? Bons dias D. Lurdes, bons dias senhor Inácio!
Não, não iria ao mercado enfiar-se no meio dos legumes e água choca dos peixes e frutas nas bacias nas cabeças das vendedoras e moscas a sobrevoar contemplativamente a carne no dia de Pessoa. Se o poeta fosse vivo faria 120 anos, era um feito e ela teria de o comemorar com alguém. Mas quem? Quem seria “Louco, sim louco, porque quis grandeza” para a acompanhar num prato de catchupa refogada e meia de leite a recitar poesia modernista e a relembrar Orpheu? Uma luz azul brilhante. Santos-Lima, professor-catedrático-topo-de-pós-doutoramento-Honoris-Causa-em-Sapiência-que-não-deixa-margem-para-dúvida, seu amigo da adolescência no Mindelo. A esta hora deveria estar a preparar-se para sair de casa… pois bem, surpreendê-lo-ia à porta.
Santos-Lima era famoso no meio académico pelas suas manias: mania de falar sempre e impreterivelmente um português douto, imaculado e vernáculo; mania de pronunciar distintamente ca-da-sí-la-ba-de-ca-da-pa-la-vra; mania de, por tudo e por nada, resgatar os seus conhecimentos de história da língua portuguesa e oferecer aos seus interlocutores, fossem eles quem fossem, verdadeiras pérolas de erudição tais como “orelha a arder? Disse orelha? Saiba o senhor / a senhorita / o jovem que o vocábulo orelha percorreu um longo caminho desde o latim até aos nossos dias (loooooooongo caminho, sublinhava): desde aurecla, orecla até orelha. É interessante, deveras interessante, rematava com o seu já mais do que satirizado chavão. Santos-Lima, alto, magro e sempre de óculos encavalitados no nariz, não confiava em ninguém porque acreditava piamente no terror psicológico propagado tão eficazmente pelos fellow americans. Há máquinas, repetia, por todo o lado, máquinas de filmar, fotografar, microfones, de tudo por todo o lado. Eles sabem tudo. Eu nunca paro a conversar na rua com ninguém porque já sei que, no mesmo instante, a minha conversa está a ser ouvida, em dolby surround, na CIA. São piores do que a PIDE, a sério que são! Sobretudo esses Peace Corps que andam aí supostamente a ajudar quem precisa… pff, máscaras, vis máscaras! Fazem-se de salvadores da pátria, essa mania ignóbil de todos os americanos que ninguém lhes consegue tirar, e andam a espiar todos dos mais ínfimos recantos: das árvores, dos rochedos, das casas abandonadas, de todo o lado, de todos os cantos e becos desta cidade!
Assim, nem na Dona Eneida de Jesus, velha governanta lá de casa que o viu nascer, ele confiava. Há uns dez anos começara a desenvolver a teoria de que a senhora só poderia ser uma espia infiltrada da CIA desde a sua nascença para o vigiar porque a CIA, claro está, tinha informações ultra-secretas que lhes permitia afiançar, sem margem para dúvidas, onde e quando nasceriam os grandes pensadores do século e ele, Santos-Lima, era, nas suas palavras, um notável ser cogitante.
Nessa manhã, como sempre, o professor fez de conta que tomou o pequeno-almoço atenciosamente (ou maldosamente?) preparado por Dona Eneida de Jesus. Saquinho de plástico escondido entre as pernas, cada dentada no pão conduzida pela mão muito discretamente até ao saco, dois pães com queijo já lá vão, leite não bebo que não tolero a lactose, quantas vezes já lhe disse, Dona Eneida de Jesus? Deixe-me ir à minha vida que já estou atrasado!
Morto de fome, ansioso por trincar qualquer coisa com prazer, abriu o portão verde da sua casa estrategicamente construída ao lado da Igreja de Nossa Senhora Nos Acuda a Todos e a primeira coisa que sentiu foi um cheiro intenso a sexo devasso. Virou a cara e viu-a. Maria Regateira, encostada ao muro bege, perna direita alçada e pé apoiado na parede, sorriso endiabrado de catraia descarada, a roda escarlate do vestido a compor o quadro da tentação. Santos-Lima, estou jeitosa? Mais do que é costume? Arranjei-me para o Pessoa, não sabes que dia é hoje? 13 de Junho! 13 de Junho, homem! Anda daí, vamos comer uma catchupa à Rosa. Não, não digas nada disso (coloca o dedo indicador com dois anéis de ouro barato nos lábios do amigo), a Rosa é de confiança. Sabes bem que não admite americanos lá no restaurante!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Maria Regateira ou Maria Ramantxada (II)

E o ritual repetia-se todas as manhãs pontualmente às 8h15: o beijo do tacão ao passeio esburacado, os olhares concentrados na sua figura de oh e o segundo e meio em que a vida dos vizinhos e habitués da rua se suspendia ao admirá-la. Maria, como sempre, faz que não vê, lança um "Ora muitos bons dias!" bem audível e, enquanto ajeita a pala que o gel extra forte fixa no cabelo, encaminha-se para o mercado a fim de fazer a despesa do dia. Não confiava essa responsabilidade à criadita porque, obviamente, não era à toa que todos a conheciam por Maria Ramantxada: dava-lhe um enorme prazer regatear preços com as vendedoras atrevidas e quase igualmente regateiras.
Duas ruas e um cruzamento depois atravessava o portão de ferro velho do mercado que ostentava uma data de inauguração já desbotada. Tinha por princípio dar, antes de mais, o descontraído passeio de reconhecimento, como gostava de lhe chamar. Contemplava as frutas coloridas e cheirosas, os legumes frescos, ia averiguando "Dona, abóbrinha é kanto?", enquanto cumprimentava uma ou outra conhecida mas nunca se entregando a grandes conversas. O mercado era para as beatas e as fofoqueiras baratas. O seu nível, a qualidade do seu discurso estavam reservados para a exclusividade dos bares e das tascas, preferencialmente o Covil, à volta de uma ou duas garrafas bem quentes.
Depois de cuidadosamente seleccionadas as bananas, as mangas, as papaias, as maçãs e as laranjas, de calorosamente debatidos os preços das cenouras, do repolho, do alho francês e dos bróculos que, por vezes, miraculosamente davam à costa, Maria encaminhava-se para o seu mais-que-tudo do mercado: a pequena casinha onde funcionava a peixaria! Aí, dava-lhe especial gozo espicaçar a sua grande rival, antiga colega de carteira na escola primária que tinha tido a ousadia, aos oito anos de idade, de lhe roubar o seu primeiro pikeno: a Mimosa.
A peixeira Mimosa era um pouco mais escura, igualmente roliça e descarada que tinha a mania particularmente irritante de se dirigir a Maria com a sobrancelha direita bem levantada, mão na cinta, joelho virado para fora e um tom de voz superior, arrogante a roçar o hitleriano: O que vai ser hoje, Hã Maria? (sobrancelha quase no couro cabeludo) Sardinha? Chicharro?
Dias havia em que Maria andava tão leve e feliz com a sua vida que nem ligava, mas noutros, naqueles em que acreditava piamente que o universo conspirava contra si, aí não se ficava e até já atravessava o portão sedenta do big match of the day:
Starring
Maria "considerable weight" Ramantxada
vs.
Mimosa "giant ass" Peixeira

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Maria Regateira ou Maria Ramantxada: a capeverdean tale

Oito e quinze da manhã: o tacão largo de madeira da sandália de tiras de pele barata e berrante que calça o pé direito de Maria Regateira bate, com algum estrondo, no cimento da rua. Será uma espécie de castanhola sevilhana esse ruído que nasce do beijo matinal da sandália da mulher das ancas volumosas a um dos passeios esburacados do Plateau. Quando o seu tacão ecoa na Rua dos Prazeres todos param para a admirar. E ela sabe. E ela gosta. Aliás, dizendo a verdade, ela prepara-se meticulosamente duas horas antes para esse momento, a sua glória, a saída para a rua onde vai desfilar, vezes sem conta, o seu corpo de tentação e os seus trapinhos made and bought in China.
Maria já não é muito nova, mas quem admira o seu porte altivo e confiante de gaiata arrisca-a pela casa dos vinte... vinte e muitos, vá. Mas não. Maria já viu bastante e viveu mais ainda. A idade nunca a revela, nem depois de tragada uma garrafa di kel grogo sabi numa das tascas lá da rua, o Covil, com os seus companheiros, muitos deles maridos das raparigas que andaram consigo na escola. Se a idade é um grande mistério, o número de amantes contabilizados equivale ao terceiro segredo de Fátima. Os amigos tentam puxar por ela. Eh Maria, tás a dar uma de ingénua ou mesmo de virgem? Modi? Conta lá, carago, conta lá! Afinal, quem já passou pela tua rede?
A rede. Muito se conspirava acerca da enorme rede balão vermelha, originalmente para uma pessoa mas que admitia grandes cavalgadas entre duas ou três. Dja bu balansa na redi di Maria Ramantxada? - perguntavam os homens entre copos e bocas desdentadas, escancaradas a bafo de álcool, linguiça e vício. Quem terá eventualmente balançado parece ter saído de lá com um compromisso de honra selado não se sabe com que saliva, mas implacável, inquebrável, nem sob tortura confessável. O que se sabe é que há muito fladu fla, muito diz que disse mas nada de concreto, nenhuma ponta por onde se pegasse.
Aureolada por este mistério, olhada sempre com muita curiosidade e alguma inveja beata, Maria Regateira saía de sua casa na Rua dos Prazeres pontualmente às 8h15, levando consigo um porta-moedas preto que lhe dera a sua avó e dois sacos de plástico para não ter de os pagar no mercado. Já são mais dez escudinhos que se poupam, ouvia ainda a voz da mãe quando pegava nas bolsas.
To be continued na próxima semana. Que se resgate o folhetim!